'Isso o deixou louco', diz única mulher que conseguiu condenar Trump por agressão sexual
A jornalista americana E. Jean Carroll, a única mulher que conseguiu a condenação de Donald Trump por agressão sexual, está saboreando essa vitória aos 82 anos, após uma batalha "difícil" que durou vários anos, explica à AFP.
"Houve momentos emocionantes, alguns até empolgantes. E às vezes era revoltante. Houve momentos em que desejei cem vezes não estar ali, e outros em que foi divertido [...] Mas tudo foi difícil. Não houve um único momento fácil em sete anos", afirmou em entrevista em Paris, por ocasião do lançamento francês de seu livro "Not My Type" (Não é o Meu Tipo, em tradução livre), onde relata todo o processo.
"Consegui fazer isso porque não tinha filhos, era mais velha e não tinha nada a perder", acrescentou.
Em 2019, esta ex-colunista da revista Elle iniciou uma batalha judicial, acusando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de tê-la agredido sexualmente em um provador de uma loja de departamentos de Nova York em 1996.
O presidente a chamou de "louca" e disse que ela havia inventado um "caso falso".
No entanto, a Justiça decidiu a seu favor sete anos depois, e Trump, alvo de inúmeras outras acusações de agressão sexual, foi condenado a lhe pagar 5,6 milhões de dólares (29 milhões de reais, na cotação atual).
"Isso o deixou louco", diz a jornalista, com satisfação.
Em outro processo por difamação, um tribunal de apelações ordenou que o magnata pagasse a Carroll 83,3 milhões de dólares (431,4 milhões de reais), mas a Suprema Corte ainda não se pronunciou sobre essa sentença, da qual Trump recorreu.
Carroll promete gastar o dinheiro que acabou de receber do presidente "em tudo o que ele odeia", ou seja, nos direitos das mulheres e das minorias, e na causa climática.
Ela não vai gastá-lo com coisas pessoais: "Não compro nada; sei como ser feliz", afirma.
- "Catártico" -
Tendo se tornado um ícone feminista, esta jornalista está ciente de como é difícil para as mulheres romperem o silêncio atualmente e acredita que o progresso alcançado após o #MeToo foi prejudicado pela inércia do sistema judiciário.
"Nenhuma mulher gostaria de fazer isso agora. Você vê mulheres se manifestando?", questiona.
"Nós vemos as estatísticas [de condenações]. Não somos burras. As mulheres estão se mantendo afastadas disso agora", acrescenta.
O medo de ter que confrontar Trump e sua máquina jurídica também fez com que, segundo Carroll, seu livro só tenha sido publicado no exterior na França.
"Ninguém vai querer publicar este livro [internacionalmente]. Os franceses foram os únicos que tiveram a coragem de publicá-lo", afirma esta mulher que teve que suportar todos os tipos de ataques do presidente.
O título do livro, "Not My Type" (Não é O Meu Tipo, em tradução livre), refere-se à expressão que Trump usou para descrevê-la, dizendo que jamais teria considerado assediá-la sexualmente.
Após os inúmeros ataques do magnata e a consequente batalha judicial, escrever tornou-se uma experiência libertadora para esta jornalista.
Além de todo o material do caso, incluindo cerca de 2.000 páginas de documentos judiciais, Carroll também utilizou suas próprias anotações.
"Quem não escreveria um livro? No fim, isso realmente me libertou", diz ela. "Foi catártico".
H.Weber--VZ